Notícia

Observatório relatório – Entrevista diretor

Diego Mahfouz Faria Lima - Diretor da Escola Municipal Darcy Ribeiro (São José do Rio Preto - SP)

“Somos agentes de transformação de pessoas, de vidas”

Você não tem ideia do que era esta escola”, diz o diretor Diego Mahfouz Faria Lima, 31, sobre o colégio municipal que comanda em São José do Rio Preto (SP). “Era uma coisa terrível.” O cenário era mesmo desolador. Faltavam portas nas salas de aula e vasos sanitários nos banheiros. As paredes, além de sujas e pichadas, tinham marcas de focos de incêndio provocados pelos próprios alunos. Buracos nos muros do colégio acabavam sendo usados como depósitos de drogas, e o tráfico e o consumo de entorpecentes podiam ser vistos até dentro escola. A violência era tão generalizada que uma das funções do diretor recém- empossado era apartar confrontos na porta da escola. “Na primeira briga que fui separar, uma aluna quebrou uma garrafa e retalhou o rosto da outra na rua”, conta ele, que chegou a ser ameaçado de morte por traficantes da região.

Seis anos e muito trabalho depois, a depredação e as agressões acabaram, o índice de evasão escolar foi zerado, não existe mais analfabetismo funcional entre os estudantes e a Darcy Ribeiro, antes com vagas sobrando, hoje tem uma lista de espera para matrículas. Tudo isso praticamente sem a ajuda da Prefeitura. “Se a gente ficar esperando somente o recurso público, não consegue fazer nada. Eu sempre falei para todo mundo na escola que não quero nunca ser um diretor de gabinete, que fica vendo documento. Quero buscar parcerias e doações.”

O sucesso do projeto pode ser medido também pelos prêmios recebidos, três até aqui. No ano passado, Diego foi apontado pelo Global Teacher Prize, considerado o “Nobel da Educação”, como um dos dez melhores professores do mundo. Os finalistas foram anunciados pelo empresário e Bill Gates, fundador da Microsoft. “O educador, apesar das dificuldades, tem que levar em conta que é um agente de transformação de pessoas, de vidas, e que é possível mudar a realidade das nossas escolas.”

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Como surgiu o interesse pela carreira?

Não tinha intenção nenhuma de ser professor nem de seguir carreira na educação. Morávamos em Paranaíba, Mato Grosso do Sul, e minha mãe teve câncer. A cada 15 dias eu vinha com ela para Barretos, que é uma referência no tratamento de câncer. Era muito cansativo. Então decidimos vir para Rio Preto para ficarmos mais próximos do hospital. Eu terminei o ensino fundamental aqui e comecei a cursar o ensino médio. Um dia passou um grupo de alunos, anunciando que estavam abertas as inscrições para o Magistério, um curso técnico. Disseram que quem fizesse esse curso ganhava uma bolsa no valor de um salário mínimo. Eu me interessei pelo valor da bolsa. Eu precisava trabalhar, via a dificuldade na minha casa, meu pai não conseguia emprego. Fazia um bico como servente de pedreiro. Fui mesmo prestar essa prova interessado na bolsa. No segundo ano, minha mãe veio a falecer. Eu já tinha feito toda a minha carga horária de estágio. Então voltei à escola em que eu estudava, não queria ficar sozinho em casa, e pedi pra diretora me deixar fazer um trabalho voluntário. Ela autorizou e eu comecei a ajudar uma professora a alfabetizar as crianças do pré. Daí descobri essa paixão pela educação.

E como foi sua carreira no magistério?

Quando eu decidi que ia seguir carreira e fazer o curso de pedagogia, eu prestei concurso em duas cidades próximas. Passei nos dois e comecei a dar aula. De manhã em uma e, à tarde, em outra. Era professor de educação infantil em uma e de ensino fundamental na outra. Mas era muito sofrido viajar para as duas cidades. Eu acordava às 3h30 da manhã e ia para uma cidade. Na hora do almoço pegava carona e ia para a outra. Ainda fazia faculdade de pedagogia em Rio Preto à noite. Foi então que prestei concurso na Prefeitura de Rio Preto, a cidade em que moro. Passei e fiquei só na minha cidade. Dei aula aqui no quinto ano do ensino fundamental. Ao todo, dei aula durante seis anos.

O convite para ser vice-diretor da Darcy Ribeiro surgiu de que forma?

Assim que assumi aqui, fui convidado para ser coordenador de uma escola em um projeto de período integral. No ano seguinte, em 2013, fui convidado para ser coordenador pedagógico nessa mesma escola. Nessa época, sempre via no noticiário coisas sobre a Darcy Ribeiro. As manchetes de jornais, as dificuldades que a escola passava: vandalismo, depredação, tráfico de drogas, polícia sempre na porta da escola, violência, brigas na saída... Nunca pensei que eu iria vir para cá. Em 2013, a Secretaria de Educação queria passar a Darcy para a rede estadual de ensino porque era um colégio muito problemático para o município. Daí, sabendo do meu trabalho, ela me convidou para vir como vice-diretor para tentar pelo menos terminar o ano. Aceitei e vim no início de 2014.

E o que aconteceu?

A diretora foi agredida fisicamente pelos alunos já na primeira semana de aula. Ela pediu um afastamento e eu fiquei responsável pela escola. Quando fui me apresentar aos estudantes, vi que o pátio estava deserto. Quando eu subi no palco para me apresentar, eles começaram a sair dos banheiros com cartazes em que estava escrito ‘rebelião’, puseram fogo nos banheiros, quebraram as salas, pegaram as maças da merenda e começaram a me atirar, jogaram água, viraram os tambores de lixo em mim... E a minha atitude foi falar que eu queria ouvi-los e que eu não iria embora. Os líderes então começaram a falar para os demais que iam falar comigo. Começaram a sentar no pátio e a expor as dificuldades, dizendo que lá tudo era motivo para suspensão de sete a dez dias, que ninguém os ouvia, que a escola era muito feia, depredada, e que não atendia às expectativas da comunidade.

O senhor não pensou em desistir naquele momento?

Não, porque eu demorei muito para aceitar o convite para vir para cá. Eu sabia da realidade da escola. Temia pela minha vida mesmo. Minha família era totalmente contra. Mas eu tinha criado um blog na faculdade chamado ‘Educação e Revolução’. Nesse blog, eu sempre falava que gostaria de fazer um trabalho diferenciado na educação, um trabalho que mudasse algo, que servisse de inspiração para alguém. Eu me lembrei disso, que, no meu tempo de faculdade, sempre quis um desafio. Então não pensei em desistir naquele momento. Também conversei com a comunidade. Temos uma escola vizinha que sempre manda os alunos do quinto ano para cá. Naquele ano, mais da metade dos alunos não tinha vindo. Perguntei para algumas famílias e disseram que eles preferiam colocar os jovens nas escolas centrais porque aqui tinha muita bagunça, muito tráfico de droga, muita violência. Eles não acreditavam mais que a escola poderia mudar. Afinal, ela era sempre apresentada com uma das piores escolas do Estado e a pior do município. Em 2013, teve o pior Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) da cidade.

O que o senhor fez então?

Elaborei, com a coordenadora, uma entrevista. Eu perguntava sobre o aluno, sobre cultura, estilo de música que a família gostava e coisas que foram fundamentais: as dificuldades que as famílias enxergavam na escola e quais os sonhos e expectativas para o colégio. Não consegui fazer com todos, mas, mesmo assim, esse questionário me possibilitou fazer um levantamento das expectativas.

O senhor disse que a escola estava também muito depredada.

Na era só depredação física. Lá tinha um intenso tráfico de drogas, nos muros e dentro da própria escola. Nós temos hoje duas praças de leitura que eram pontos de tráfico a que os alunos não podiam ter acesso. Ali ficavam traficantes e moradores de rua para traficar e consumir.

Dentro da escola?

Dentro da escola. Além disso, havia violência também. Quando eu cheguei aqui, a minha função, na saída, era ir para a rua apartar brigas de estudantes e de gangues. Na primeira briga que fui separar, uma aluna quebrou uma garrafa e retalhou o rosto da outra na rua. Pensar em desistir? Pensei várias vezes depois. Mas sempre lembrava que, na faculdade, eu queria fazer um trabalho de transformação na educação. Então eu levei isso como um desafio, como algo que era possível realizar.

Como essa transformação foi iniciada?

A escola era muito feia. Eles colocavam fogo na sala de aula, pichavam. E eu queria que a escola começasse uma nova história. Eu sabia que várias escolas da cidade tinham sido reformadas. Escrevi um e-mail, pedindo restos de tinta e de material de pintura. E os retornos começaram. Cheguei a ir buscar de meio galão de tinta a um pincel. Guardei isso na escola e, em julho, quando os alunos entraram em férias, a Prefeitura me mandou dois pintores. Eu e esses dois pintores começamos a pintar as salas de aula. Mas a escola tem vinte salas e o material daria para apenas onze. Além de feia, também havia muito mau cheiro porque os estudantes quebravam todos os vasos sanitários dos banheiros. Ficavam no chão apenas buracos. Um dia uma aluna foi buscar o uniforme, que, naquele ano, tinha chegado em julho. Ela viu que a sala dela estava sendo pintada e ficou muito emocionada. Deu então um abraço na inspetora que estava entregando os uniformes. Essa inspetora veio no dia seguinte e disse que queria, mesmo não sendo a função dela, ajudar a pintar. A notícia correu pelo bairro. Um dia chegou uma doação anônima de tinta. Daí começaram a chegar pais e parentes, dizendo que também queriam ajudar. Quando eu vi, pintamos em 20 dias uma escola de quase meio quarteirão e o muro. Ainda doamos o material que sobrou para outra escola.  Começamos então o segundo passo. Porque aplicamos aquele questionário também para os professores e funcionários. Eles diziam que tinham muito medo dos alunos, que já tinham apanhado deles e que não acreditavam na mudança. Por isso tinham aquele olhar punitivo. Só em 2013, 202 alunos tinham abandonado os estudos. Por quê? Porque eles eram suspensos de sete a dez dias. Eles então ficavam na rua e se envolviam com o tráfico, com a criminalidade, e não voltavam. O segundo passo então foi resgatar o vínculo entre funcionários, professores e alunos. A gente fez um trabalho para que cada funcionário fizesse uma entrevista com os alunos com quem tivessem maior dificuldade. Daí eles descobriram que tinha aluno que via a mãe ser agredida, que passava fome. Eles passaram a ter um outro olhar em relação aos estudantes. O adolescente, se não se sentir participante do processo, também não cumpre regras. Por isso, outro passo foi trazer a comunidade e os alunos para a construção das novas regras, das normas de convivência da escola. Porque não havia regra aqui. Eles também não tinham consciência de que existia o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional). Então os professores começaram a trabalhar essas questões em sala de aula, a falar de direitos e deveres. Ficamos um ano trabalhando nisso. Toda a comunidade foi convocada: alunos, pais, equipes da escola. E, como eles participaram da construção, eles sentem que têm o dever de cumprir essas regras. Temos também professores que são tutores, um projeto em que cada professor é responsável por uma turma. Eles começaram, com isso, a ouvir mais os alunos. Depois surgiram as assembleias de classe e as assembleias coletivas, para discutir questões relacionadas a outros assuntos. Por exemplo, a luz da quadra acesa durante o dia, os preços na cantina. A partir daí, na última sexta-feira do mês, os pais, a comunidade, os alunos, funcionários e professores debatem isso e votam o que deve ser implantado. E as sugestões aprovadas começam a vigorar logo na segunda-feira seguinte.

A questão da evasão escolar foi resolvida de que maneira?

Era uma luta. Já no primeiro ano de implantação do nosso projeto, ela caiu de 202 alunos, em 2013, para somente dois em 2014. Hoje a escola não tem mais alunos evadidos.

Como isso foi feito?

Criamos um projeto de visitas às residências e implantamos um sistema de carteirinhas escolares. Cada aluno aqui tem uma carteirinha com foto, com os dados da escola e, no verso, um código de barras. Quando o aluno chega, ele passa essa carteirinha no sistema e a frequência é computada naquele dia. Quando o aluno falta por mais de dois dias consecutivos ou cinco dias intercalados no mesmo mês, o sistema identifica. Aí é que eu atuo. Vou à casa do aluno até encontrar a família, normalmente à noite. Vou saber o que está acontecendo. A gente tem casos aqui em que a mãe saía para trabalhar e deixava o filho pronto para vir para a escola. Mas ele ia para a lan house. Daí criamos uma parceria também com as lan houses próximas. Fizemos um cadastro e passamos para os donos. Com isso, durante o horário de estudo, o aluno não consegue acessar a lan house. Mas agora também os alunos sabem que, se eles não aparecem, eu vou até a casa deles. Então, quando eles não podem vir, trazem atestado, justificam a falta. Até os pais ligam para se explicar.

Essa iniciativa foi bem recebida?

Muito. Quando eu chego para saber por que os alunos estão faltando, eles até me convidam para jantar com a família. Eu participo junto. Já estou há seis anos aqui na escola. Então já conheço toda a comunidade. E cobrimos 11 bairros. São mais de mil alunos. As famílias até agradecem, porque muitos pais não sabiam que o filo estava faltando à escola.

O senhor contratou um carro de som para que os pais soubessem das reuniões escolares, já que os filhos não avisam sobre esses encontros?

Sim, mas não foi só por isso, não. Quando assumi, queria me apresentar para os pais. A primeira reunião foi muito frustrante. Mandei bilhete, avisando que queria apresentar os projetos para a escola. Começamos a colocar cerca de 500 cadeiras no pátio. Os inspetores riam. Para que colocar 500? E eu dizia: ‘A escola tem 1.189 alunos. Quinhentas cadeiras ainda é pouco’. Pedi para abrir o portão mais cedo para não ter tumulto. A reunião estava marcada para 19h. Apareceram nove pais, que, às 19h40, começaram a brigar para começar logo porque eles tinham que ir embora. Daí os inspetores me contaram que os alunos, além de não avisarem os pais, não entregavam os bilhetes. Fiquei pensando em uma estratégia de como a aproximar os pais da escola. Uma delas foi o carro de som. Eu então estava triste naquela semana porque os pais não tinham vindo. Daí passou um carro de som, anunciando as promoções de uma padaria. Pensei: ‘E se a gente colocasse os comunicados dos eventos da escola nesse carro de som?’ Saí correndo atrás e era de um pai de aluno. Ele me disse que nunca tinha feito isso, mas que, se a gente elaborasse as mensagens, ele ia passar anunciando, entre 18h e 20h. E fez isso voluntariamente, sem cobrar nada, porque queria ajudar a escola. Foi um sucesso. Mas, mesmo assim, eu não tinha a comunidade presente. Só fui conseguir isso quando apareceu um grupo de pessoas querendo um espaço para ensinar música clássica e aulas de pintura em tela. Perguntaram se eu cederia o pátio do colégio por meio período no sábado. Fiquei feliz e concordei. Mas queria mais. Conversei com os alunos e eles pediram aulas de grafite, teatro... Fui então atrás de parcerias. Quando eu vi, tínhamos aula de capoeira, grafite, teatro e dança. Comecei a abrir a escola aos sábados, das 8h às 17h e, aos domingos, até a hora do almoço, para aulas de futebol e práticas esportivas.

Tudo isso gratuitamente?

Tudo gratuito. Mas tive outro problema. A Prefeitura gostou da ideia, liberou a merenda, mas eu não tinha funcionários para trabalhar aos finais de semana. Comecei a conversar com os pais e a perguntar quem sabia fazer comida, quem poderia ajudar a limpar a escola e a tomar conta dos alunos. Foi aí que a comunidade começou a abraçar a escola. Quando percebi, tinha mais de 200 voluntários.

Mas a escola continuava muito depredada, porque só tínhamos conseguido pintar. Ainda havia torneiras e ventiladores quebrados. São mais de 130 escolas em Ribeirão Preto. A Prefeitura não dá conta de fazer manutenção em tudo. Os pais então começarão uma prática. Vinham acompanhar os filhos aos finais de semana, ajudavam e começaram a trazer uma ferramenta, a consertar um ventilador...

E isso sem nem mesmo o senhor pedir?

Tudo por vontade própria. Ficamos dois anos sem receber reparo de ventilador. Até hoje eu tenho mais de 30 pais voluntários, que vêm todo final de semana para fazer manutenção na escola. E, quando eu não ligo para passar serviço, eles ficam bravos. Hoje a gente então depende muito pouco da manutenção da Prefeitura. Os pais abraçaram a escola de tal forma que eles mesmos fazem isso. Tínhamos aqui duas áreas que eram usadas pelo tráfico de drogas.  Quando a comunidade falou para os traficantes que a escola ia receber novos projetos e que ia começar uma nova história, eles tiveram que abandonar o local. Nessas duas áreas, ficavam moradores de rua usando drogas. O muro, nesses locais, era todo furado. Colocavam (nos buracos) cápsulas de cocaína e porções de maconha. A gente não tinha condições de fazer nada nessas áreas. Os pais se juntaram e construíram praças de leitura gigantes.

Com recursos próprios?

Elas ficaram caras. Tivemos um gasto de R$ 400 para fazer as duas. A comunidade não tinha o ferro de que precisávamos. Eles então fizeram uma festa na escola, a festa da família, para levantar esse valor. Também conseguiram doações. Com isso, pudemos ainda comprar o primeiro telescópio da escola. Temos um clube de astronomia. Criamos isso porque os alunos não gostavam de fazer tarefa nem davam importância para o conhecimento científico. Então eles vinham à noite, com a família, para ter palestras sobre o universo. O professor apontava as coisas no céu com o dedo. A comunidade se juntou e conseguiu um telescópio com a festa também. No ano retrasado até construímos uma sonda, ganhamos um balão, acoplamos uma câmera e mandamos, com a foto do clube de astronomia, para o espaço. Hoje eles estão estudando as imagens feitas por essa sonda.

Então o senhor não recebeu recursos da Prefeitura nesse processo de mudança?

Não. Foi tudo feito pela comunidade. Inclusive, quando cheguei aqui, mandei pedido para a Prefeitura, dizendo que queria fazer essas praças de leitura. Faz anos. Até hoje não tive resposta e elas já estão até prontas.

E como lidou com os traficantes?

No começo, fui ameaçado de morte. Mas agora minha relação é muito boa. A escola se tornou uma grande referência para a comunidade. Hoje a comunidade não vem à escola apenas para questões escolares. Por exemplo, teve uma aluna que, há dois anos, roubou uma senhora cega. Eles iam linchar essa aluna. Mas antes passaram aqui para ouvir meu depoimento de como era a vida da menina, para dar uma chance a ela. Tem mãe que diz que o filho está roubando e me pede ajuda. Aluno que conta que está no tráfico. Aí faço parcerias. Consigo cursos, vou atrás de trabalho. Quando também tenho um aluno que está faltando e sei que ele está no tráfico, chego até o traficante e digo que o garoto tem que estar na escola. Coloco o estudante no carro e trago para a escola. Quando chegamos, não fico punindo. Chamo, converso e digo que ele me decepcionou, que não acredito que tenha entrado nessa vida. Ele diz: “Mas você lembra que remendava meu chinelo com grampo? Agora minha roupa melhorou”. Pergunto então se ele acha que isso dá futuro. Aí ele me pede ajuda para sair dessa vida. Ligo para as instituições, para os comerciantes, e digo que preciso de uma vaga. Dali a alguns dias ele chega falando que recebeu o primeiro salário.

E os traficantes respeitam isso?

Para você ter uma ideia, a Prefeitura, durante quase um ano e meio, cortou os guardas das escolas. No nosso quarteirão estão mais três colégios. Durante esse período, só nós não fomos roubados. Há um respeito pela escola. No começo, como eu disse, tinha que ir todo dia apartar briga de aluno. Não sabia mais o que fazer. Foi quando uma amiga me sugeriu fazer um curso de mediação de conflitos. Com isso, quando são identificados possíveis conflitos, bullyings, agressões verbais, professores, funcionários e alunos já encaminham esses casos para a mediação. Fortalecemos muito a questão do diálogo, da paz, do saber ouvir. E eles saem com aquele problema resolvido. Hoje eu tenho uma lista de espera gigante de alunos que sofrem bullying em outras escolas e querem vir para cá porque sabem que temos projetos para combater isso. Um juiz veio me perguntar como conseguimos não ter mais briga na porta. Porque tem uma escola muito próxima em que tiveram que fazer uma intervenção e até mandar um aluno para a Fundação Casa.

O senhor também treinou os alunos que eram indisciplinados para fazer essa mediação. Por quê?

Porque eles tinham uma liderança negativa muito grande. Ele era um líder, não deixava de ser um líder. A gente teve que saber ajudá-lo a trabalhar essa liderança, para que ela se tornasse positiva.

E os problemas de aprendizado? O senhor tinha casos de analfabetismo funcional e até de dificuldade de leitura.

Tínhamos 99 alunos que não sabiam ler nem escrever. E em uma faixa etária que ia de 11 a 17 anos. Mas, se você falar para o aluno vir, fora do período de aula, para participar do reforço, ele nunca vai vir. Ele tem vergonha da palavra ‘reforço’. Convocávamos e eles não vinham. Criamos então um projeto que se chama ‘plantão de dúvidas’. Começamos espalhando curiosidades pela escola, tipo, como é formado um vulcão, feito um chiclete. Durante a entrada, eu então perguntava se eles tinham visto e dizia que nem eu sabia daquilo. Os professores também faziam isso. Nossa fala era a de que ninguém sabe de tudo e que aprendemos todo dia. Disse um dia que, sabendo que eles têm muita curiosidade, criaria um plantão de dúvidas. E eles começaram a vir. Vinham até os alunos que não precisavam. Daí os professores, com tutoria, começaram a colocar os alunos que não tinham dificuldade para ajudar os que tinham. E virou uma rede de conhecimento. Hoje eles vêm e não têm mais vergonha de dizer que não sabem. Quando cheguei, tínhamos 170 alunos reprovados. Desde que o projeto começou, nunca tivemos mais do que dez. No ano passado, por exemplo, tivemos seis. Antes eram 180, quase 200 por ano.

E onde o senhor buscou inspiração para fazer tudo isso?

Eu li, fiz cursos. Também tive três professoras que me inspiraram muito na faculdade. E me identifiquei muito com a história de vida dos alunos. Tinha também a missão de que queria fazer a diferença. É o que eu converso sempre também nas escolas que visito. A gente não pode ser diretor de gabinete. Além de ter que valorizar a questão da gestão democrática, se a gente não correr atrás e ficar só sentado, esperando as coisas virem... Eu gastei muita sola de sapato indo atrás das coisas, pedi muito. Tínhamos um sonho de ter um laboratório de informática. Tínhamos nove computadores e o professor levava 35 alunos. Eram quatro ou cinco por computador. Fiz então parcerias com as entidades privadas, que doaram todos os computadores. Temos também uma rádio escolar doada pela iniciativa privada. Passam comunicados, têm autonomia para colocar músicas na hora do recreio e está sendo feito um estudo para ela que se torne uma emissora da comunidade. Também não tínhamos nem 500 exemplares de livros na biblioteca. Quando eu falei que ia abrir para a comunidade, riram de mim. Mas, quando fizemos isso, a comunidade, na hora de devolver o livro, voltava com outros dez para doar, com um carro cheio. Hoje nosso acervo tem mais de sete mil livros. Outra coisa foi que percebemos que mais da metade dos pais também não tinha escolaridade. Por isso eles não incentivavam os filhos nos estudos, na leitura. Agora os pais saem do trabalho e vêm para escola para aprender a ler e a escrever. Criamos também o projeto ‘Pare para Ler’. Em dias alternados, todo mundo na escola, quando toca um sinal, tem que parar o que está fazendo, pegar um livro e ler durante dez minutos. Todo mundo: secretaria, eu, pessoal da limpeza, a coordenadora, as merendeiras. Cada sala fica à vontade para realizar a leitura da forma que quiser. Hoje já temos alunos com destaque em leitura.

Com isso hoje não existem mais alunos que não sabem ler e escrever?

Temos alunos que vêm de uma escola vizinha, que só tem até o quinto ano. Eles então vêm para cá para fazer o sexto. Fizemos uma parceria com eles porque estavam chegando muitos alunos que não sabiam ler e escrever. Estamos então ajudando para que eles alfabetizem os alunos lá mesmo, até o quinto ano.

Mas aqueles que são da Darcy Ribeiro?

Não temos mais alunos que não são alfabetizados. Conseguimos sanar isso. Temos só estudantes que vieram no ano passado dessa escola, do quinto para o sexto ano, que ainda estão sendo alfabetizados no plantão de dúvidas.

Esses exemplos todos mostram que nem sempre as mudanças dependem de recursos públicos.

De jeito nenhum.

Isso quer dizer então que faltam iniciativa e engajamento dos professores e diretores?

Não é que falta iniciativa. Falta a gente sair da nossa zona de conforto e ir buscar também. Porque, se a gente ficar esperando somente o recurso público, não consegue fazer nada. Eu sempre falei para todo mundo na escola que não quero nunca ser um diretor de gabinete, que fica vendo documento. Quero buscar parcerias e doações. Nosso poder público, não é que ele é falho. A demanda é muito grande e ele não consegue suprir todas as necessidades. E a gente tem também que jogar um pouco de responsabilidade para a comunidade. Porque, por exemplo, eles quebravam e depredavam a escola. Mas eles não tinham sentimento de pertencimento. Parecia que a escola não pertencia à comunidade. 

Hoje não há mais depredação?

Não. Tivemos um aluno novo, no ano retrasado, que riscou uma parede da escola. A mãe dele foi tão consciente que fez o aluno usar um dinheiro que ele tinha. Ele e a família vieram em um final de semana e pintaram a parede toda. Quando eu cheguei aqui, as salas não tinham portas. De 18 salas, uma tinha porta. E, nessa porta, ainda tinha um buraco enorme. A Prefeitura vinha, mas, enquanto o marceneiro colocava a segunda porta, os alunos diziam para ele voltar e recolar a primeira porque já tinham derrubado. O vaso sanitário, eu ouvia o barulho da minha sala. Eles conseguiam tirar o vaso do chão. Eles punham tanta bomba dentro do vaso que ele explodia e ia parar no teto. Chegava ao banheiro e estava vazando aquele monte de água. Você não tem ideia do que era esta escola. Era uma coisa terrível. Uma das primeiras coisas que os alunos disseram foi que sonhavam com espelho no banheiro. Como eu ia colocar espelho se tiravam a porta, o vaso? Seria até perigoso. Disseram então que estávamos começando uma nova história e que eu podia confiar. Até hoje os espelhos estão lá. Há seis anos já. Os vasos sanitários, as portas, tudo. Hoje eles amam a escola e têm um sentimento de pertencimento. Não aceitam que ninguém a estrague.

Quais são os planos do senhor de agora em diante?

Agora queremos ir além. Estamos estudando, com o fórum da cidade, para implementar aqui a Justiça Restaurativa, você se colocar no lugar do outro, refletir, ajudar a acabar com a cultura do bullying. Começamos no final do segundo semestre também um clube de política, que era um desejo dos alunos. Eu recebo vários diretores e supervisores. Pessoas me ligam da Bahia, da região Norte, Sul, pedindo ajuda porque enfrentam os mesmos problemas que eu enfrentei aqui. Eu falo para eles que, se não houver uma mudança no olhar da equipe, se eles não estiverem abertos para o diálogo, fica só no projeto. Meu maior sonho então seria poder contribuir para mudar essa realidade. Queria que esse projeto fosse maior e (de maneira organizada) chegasse a outras escolas.

O projeto aí deu tão certo que o senhor antes tinha vagas sobrando e hoje tem fila de espera de alunos.

Sim, tem pais que choram, imploram por uma vaga. Mas não cabe a cidade inteira aqui dentro. Antes eu tinha que implorar para os alunos fazerem matrícula, hoje, para você ter uma ideia, nosso depósito virou sala de aula para dar conta da demanda. E temos mais de 50 alunos na lista de espera. Claro que não é uma escola perfeita, ela tem dificuldades. Mas o diferencial é como a gente lida com esses problemas. Outro exemplo. Às sextas-feiras, 60% dos alunos não vinham. Criamos o ‘Prata da Casa’. É um show de talentos em que a comunidade, professores, funcionários e alunos se apresentam durante uma hora, na última aula. Tenho avos que vêm tocar sanfona, contar piada, pai que vem tocar violão...

Se o senhor então tivesse que dar um conselho aos gestores e professores, qual seria?

Que o educador, apesar das dificuldades, tem que levar em conta que é um agente de transformação de pessoas, de vidas, e que é possível mudar a realidade das nossas escolas. Para isso, temos que valorizar três pontos fundamentais: primeiro, tornar o aluno protagonista de todas as ações na escola; segundo, trazer a comunidade para dentro do colégio e, terceiro, disseminar o fortalecimento do diálogo, do saber ouvir. Veja só, no primeiro final de semana em que abrimos a escola, ganhamos uma doação de 40 violinos. Hoje os alunos compõem uma orquestra que se apresenta na abertura de eventos, em grandes auditórios, em outras cidades. Até piano já ganhamos.

É preciso então empenho de educadores e gestores para buscar doações.

Sim, tive sapatos que ficaram com buraco mesmo, de tanto andar atrás de doação, de pessoas para acreditar no projeto. Hoje, se formos fazer uma pintura na escola, já temos pessoas que doam, que abraçam a causa. Temos uma lista de pais pintores voluntários. Porque, se formos esperar o setor público, vai demorar meses, até anos para fazer uma pintura.